Introdução
Se você, em sua busca por autoconhecimento, começou a pesquisar sobre rituais e medicinas da floresta, certamente já se deparou com as palavras “xamã”, “pajé” ou “xamanismo”. Essas palavras carregam um poder ancestral, evocando a imagem do líder espiritual na floresta, em profundo contato com a natureza e os espíritos.
Mas, de repente, você descobre que esses rituais não estão acontecendo apenas em aldeias remotas. Eles estão aqui, na cidade, talvez em um centro de terapias, em uma chácara no fim de semana ou em um templo urbano.
Como isso é possível? Como uma prática tão ligada à floresta se adaptou ao asfalto? Aqui, precisamos entender a diferença crucial entre dois termos: Xamanismo (a prática ancestral) e Neoxamanismo (a adaptação urbana).
Para quem busca a cura da depressão, da ansiedade ou de traumas, entender essa diferença é fundamental para saber onde se está pisando.
Neste artigo, vamos explorar quem é o pajé “raiz”, o que é o “neoxamã” e como esse movimento de trazer a tradição para a cidade funciona.
O xamanismo "raiz": o pilar da aldeia

Quem é o xamã (ou pajé)?
No contexto indígena tradicional, o xamã (termo mais usado na Ásia, sendo “pajé” mais comum no Brasil) é muito mais que um “sacerdote”.
Ele é o mediador entre o mundo dos humanos e o mundo dos espíritos. É o médico, o psicólogo, o conselheiro e o guardião da memória e da cosmologia do seu povo.
Seu poder vem de uma relação profunda e, muitas vezes, perigosa com o “outro lado”, um mundo habitado por espíritos de plantas, animais e ancestrais.
Ele aprende a navegar esse mundo, muitas vezes com o auxílio das plantas de poder (como a Ayahuasca, ou Nixi Pae para os Huni Kuin), para diagnosticar a causa espiritual de uma doença, resgatar uma alma perdida ou garantir o equilíbrio da comunidade.
O ritual na floresta: uma prática de todos
Na aldeia, o xamanismo não é um “evento” de fim de semana que você paga para ir. É parte integrante da vida.
O ritual xamânico está ligado à sobrevivência e ao equilíbrio de toda a comunidade: curar um doente, garantir uma boa caça, agradecer pela colheita ou iniciar os jovens.
As medicinas da floresta são usadas dentro desse contexto. O pajé bebe o chá para “ver” a doença, e não para o seu “autoconhecimento” individual como o entendemos.
A cura de um é a cura de todos. O xamanismo tradicional é, portanto, uma prática coletiva, enraizada em um território e em uma cosmologia específica daquele povo.
A tradição na cidade: o fenômeno do neoxamanismo

O que é o "neoxamanismo"?
O “Neoxamanismo” é o nome que os estudiosos dão para a forma como o xamanismo foi adaptado para nós, no mundo urbano. É uma “nova construção”. Ele não está ligado a uma única tradição indígena.
Pelo contrário, é caracterizado pela mistura: ele frequentemente combina elementos da Amazônia (Ayahuasca, Rapé) com práticas andinas (canto para Pachamama), com o tambor norte-americano, e até mesmo com espiritualidades da “Nova Era” (New Age), como o uso de cristais ou reiki.
O foco também muda. Se o xamanismo tradicional cuida da saúde da comunidade, o neoxamanismo foca na cura do indivíduo.
Ele responde às nossas “doenças da cidade”: depressão, ansiedade, síndrome do pânico, falta de propósito e a busca por autoconhecimento e espiritualidade.
Quem é o "neoxamã" ou "facilitador"?
O “neoxamã” (ou, como muitos preferem, “facilitador” ou “terapeuta xamânico”) geralmente não é um indígena. É uma pessoa da cidade, de classe média, que, em sua própria busca por cura, sentiu um “chamado”.
Esse indivíduo viaja, vai às aldeias, passa por “iniciações” com pajés, aprende a conduzir os rituais, a cantar as músicas e a servir as medicinas. Ele então “traduz” essa experiência para o público urbano.
Ele se torna a nova ponte, o condutor que guia as pessoas da cidade (que não têm acesso direto aos pajés) por essa jornada, geralmente em rituais que acontecem ao redor de uma fogueira, em chácaras alugadas nos fins de semana.
O "consumo ritual" e a circulação das medicinas
Essa adaptação urbana criou o que se chama de “circuito de consumo ritual”. Para que o ritual aconteça na cidade, ele precisa se encaixar na nossa lógica.
As medicinas, que na aldeia são parte da vida, tornam-se “produtos” espirituais. O ritual, que na aldeia é um dever, torna-se um “serviço” que tem um custo, uma “troca de energia” (financeira).
Isso pode soar negativo, mas é esse circuito que permite que as medicinas cheguem até quem está sofrendo na cidade.
Foi o neoxamanismo que popularizou o Rapé, o Kambô e a Sananga, e que criou uma demanda que, por sua vez, levou ao próximo movimento: a vinda dos próprios indígenas para a cidade.
A ponte de duas vias: o indígena na cidade
Os pajés viajantes: a tradição em movimento
Se o neoxamanismo foi o primeiro movimento (do branco indo à aldeia e “traduzindo” o ritual), o segundo movimento, mais recente, é o dos próprios indígenas vindo à cidade.
Lideranças e pajés de povos como os Huni Kuin, Yawanawá e Katukina começaram a viajar para as capitais do Brasil e do mundo.
Eles vêm para conduzir seus rituais tradicionais, “abrir o Nixi Pae (Ayahuasca)” para os nawá (não-indígenas), divulgar sua cultura e vender seu artesanato.
Esse fenômeno é complexo. Para o indígena, vir para a cidade é também uma estratégia de sobrevivência e de fortalecimento político.
O dinheiro arrecadado nos rituais urbanos é, muitas vezes, revertido para a comunidade, para a compra de terras ou para a realização de seus grandes festivais na aldeia. É uma forma de usar a própria medicina para garantir o futuro da sua cultura.
Apropriação cultural ou intercâmbio legítimo?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares.
Quando um “neoxamã” branco cobra por um ritual que mistura elementos de várias tribos, ele está se apropriando de um saber que não é dele? Ou ele está ajudando a divulgar essa cultura?.
A resposta não é simples e está no meio-termo.
Há, sim, um risco enorme de banalização e apropriação indevida: rituais feitos sem profundidade, “facilitadores” que se autointitulam “xamãs” após uma única viagem à Amazônia.
Isso desrespeita a tradição. Por outro lado, o intercâmbio é real. Muitos pajés veem com bons olhos essa troca, desde que seja feita com respeito, aliança e, principalmente, com um retorno justo para a comunidade de origem.
O ideal é buscar rituais onde o respeito à fonte é claro, seja pela presença de um indígena ou por um “neoxamã” que tenha uma aliança verdadeira e transparente com a aldeia que o ensinou.
A "tradução xamânica": a magia se perde?
Outra dúvida comum é: um ritual feito em uma chácara em São Paulo pode ter a mesma “força” de um ritual feito na floresta? O pajé Guarani Geraldo Karaí Okenda fala sobre a dificuldade de “tradução”.
Como traduzir uma cosmologia inteira, onde o vento, os animais e as plantas são seres falantes, para pessoas que vivem cercadas de concreto?
É um desafio. O ritual urbano é, por definição, uma adaptação. A força da floresta não estará lá fisicamente.
No entanto, o “neoxamã” ou o pajé viajante tenta, através dos cantos, da fogueira e das medicinas, abrir uma “fenda” nesse mundo urbano, um portal momentâneo para o sagrado da floresta.
A “força” do ritual na cidade não vem do local, mas da medicina e da egrégora (a força do grupo) que se forma ali.
Conclusão
O “xamanismo” que encontramos hoje na cidade é, na verdade, um “neoxamanismo” — uma adaptação, uma tradução, uma mistura de saberes ancestrais para curar nossas dores modernas.
Se, por um lado, o xamanismo “raiz” do pajé cuida do equilíbrio da aldeia, o neoxamanismo do “facilitador” urbano cuida da cura do indivíduo que se sente perdido na cidade.
Esse fenômeno é uma ponte de duas vias. Ele permitiu que nós, os nawá (não-indígenas), tivéssemos acesso a ferramentas de cura profundas, como a Ayahuasca e o Rapé, que antes estavam restritas à Amazônia.
E, permitiu que os próprios indígenas, ao viajarem para as cidades, usassem seus rituais como estratégia de fortalecimento cultural e político.
Para quem busca essa cura, o caminho mais seguro é o do respeito. É entender que não se está comprando um produto, mas pedindo licença para entrar em um saber milenar.
É procurar por condutores, sejam eles indígenas ou não, que demonstrem ter uma aliança verdadeira com a fonte e que tratem as medicinas não como um negócio, mas como o sagrado que são.
Referências
FERNANDES, Saulo Conde. Xamanismo e neoxamanismo no circuito do consumo ritual das medicinas da floresta. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 289-314, maio/ago. 2018.
MENESES, Guilherme Pinho. Medicinas da floresta: conexões e conflitos cosmo-ontológicos. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 229-258, maio/ago. 2018.
MENESES, Guilherme Pinho. Nos caminhos do Nixi Pae: movimentos, transformações e cosmopolíticas. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
PACHECO, Carlos Eduardo Neppel. Um psicoativo em trânsito: o caso histórico da Ayahuasca. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2014.
ROSE, Isabel Santana de; OKENDA, Geraldo Karaí. Xamanismos Guarani e Tradução no Encontro de Saberes. Revista Ilha, v. 23, n. 3, p. 21-40, 2021.
(Org.). Medicinas Tradicionais e Medicina Ocidental na Amazônia. Belém: Edições CEJUP, 1991.
Disponível em frascos de 10 e 25g. Produzidos de acordo com os ritos tradicionais indígenas .









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