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Santo Daime e União do Vegetal: Os Caminhos Religiosos da Ayahuasca

Entenda as semelhanças entre o Santo Daime e União do Vegetal, as doutrinas religiosas que legitimaram a Ayahuasca.
Como o chá da ayahuasca se tornou o sacramento central de doutrinas espirituais como Santo Daime e União do Vegetal.

Introdução

Quando você pensa em Ayahuasca, qual a primeira imagem que vem à mente? Muitos imaginam um pajé na floresta, em um ritual xamânico. Essa é uma imagem verdadeira e fundamental.

No entanto, o caminho que fez essa medicina amazônica chegar até você, na cidade, foi aberto de forma decisiva por um outro contexto: o religioso.

A Ayahuasca não é apenas uma ferramenta xamânica; ela é o sacramento sagrado, o pilar central, de religiões brasileiras reconhecidas e estruturadas.

Se sua busca por autoconhecimento passa por um caminho de ordem, disciplina e fé, é provável que você se depare com o Santo Daime ou com a União do Vegetal (UDV).

Essas duas doutrinas nasceram no coração da Amazônia e criaram uma ponte única entre o saber da floresta, o cristianismo popular e o espiritismo. Elas pegaram o chá e o transformaram em um veículo para o divino, com regras, rituais e uma comunidade de fiéis.

Neste artigo, vamos conhecer essas duas estradas de fé e entender como elas usam a Ayahuasca como um caminho para o equilíbrio.

O seringueiro fundador: Mestre Irineu e o Santo Daime

A visão da rainha na floresta

A história do Santo Daime começa com um homem: Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu. Negro, maranhense, neto de escravos, Irineu tinha quase dois metros de altura e uma presença marcante.

Ele migrou para o Acre no início do século XX para trabalhar nos seringais, a dura vida de extração da borracha.

Foi lá, na floresta profunda, que ele teve contato com a Ayahuasca, provavelmente através de indígenas ou caboclos.

Em suas experiências, ele teve uma visão poderosa de uma entidade feminina, uma senhora de imensa luz que se apresentou como a Rainha da Floresta, e que Mestre Irineu identificou com a Virgem Maria, a Nossa Senhora da Conceição.

Essa entidade lhe deu uma missão: fundar uma nova doutrina que usaria o chá para a cura e a caridade.

A criação do "Daime" e o hinário

Mestre Irineu “domesticou” a bebida. Ele rebatizou a Ayahuasca de “Daime”, uma palavra que vem da rogação “Dai-me força, dai-me amor, dai-me luz”.

Ele fundou seu centro, o Alto Santo, na década de 1930, em Rio Branco. Ali, ele criou uma religião profundamente sincrética: uma mistura de tradição indígena amazônica, catolicismo popular (com santos, rezas e a figura de Maria), espiritismo kardecista e elementos da cultura africana.

O pilar da doutrina são os “hinos”. Mestre Irineu e outros líderes “receberam” (em suas mirações) centenas de cânticos que são, ao mesmo tempo, orações, ensinamentos e guias para a jornada com o Daime. O “hinário” é o evangelho vivo da doutrina.

Como é o ritual do Santo Daime?

O ritual do Daime é chamado de “trabalho”. Os participantes regulares usam uma “farda” (uniforme, geralmente branco e azul) e bebem o Daime em momentos específicos.

Existem diferentes tipos de “trabalhos”: as “concentrações”, onde os fiéis ficam sentados em silêncio ou cantando hinos mais suaves, focados na introspecção; e os “bailados”, rituais festivos onde todos dançam (com uma coreografia específica, marchada) e cantam os hinos do hinário.

A música e a dança são centrais, servindo como uma forma de disciplina, união do grupo e uma âncora para a “miração” (a experiência visionária).

O resgate do vegetal: Mestre Gabriel e a União do Vegetal (UDV)

A origem na fronteira

A União do Vegetal (UDV) tem uma origem paralela, mas distinta. Ela foi fundada em 1961, nos seringais da fronteira do Brasil com a Bolívia, por outro seringueiro: José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel.

Mestre Gabriel, um baiano de fala mansa e grande sabedoria, também encontrou o chá através de “vegetalistas” (curandeiros locais) na floresta.

Após um período de profundas experiências e estudos solitários com a bebida, Mestre Gabriel “recriou” a religião, estruturando uma nova doutrina para repassar o que ele havia aprendido.

Ele rebatizou a bebida de “Vegetal” e, em 1965, fundou a primeira sede da União do Vegetal em Porto Velho (RO).

A doutrina da UDV: o caminho do Mestre

A UDV também é uma linha cristã e reencarnacionista, fortemente influenciada pelo espiritismo kardecista, mas com uma ênfase diferente do Daime. Se o Daime é marcado pela música e pela “miração”, a UDV é marcada pela palavra, pela ordem e pelo estudo.

Mestre Gabriel estruturou a UDV de forma hierárquica (com um corpo de Mestres, Conselheiros e Discípulos) com o objetivo de promover a evolução espiritual através do bom uso da palavra e da prática da virtude no dia a dia.

A doutrina é ensinada oralmente, de Mestre para discípulo, dentro das “sessões”.

Como é o ritual da União do Vegetal?

O ritual da UDV é chamado de “sessão”. Os participantes bebem o Vegetal (chamado de “preparo”) e se sentam em cadeiras dispostas de forma organizada.

Diferente do Daime, não há dança nem um hinário cantado da mesma forma. O foco é a concentração mental.

Durante a sessão, o Mestre que dirige o trabalho fala, conta histórias de Mestre Gabriel, explica pontos da doutrina e faz “chamadas” (ensinamentos em forma de canto curto).

O silêncio e a escuta atenta são fundamentais. A UDV acredita que o Vegetal “abre a mente” e a “miração” (aqui chamada de “borracheira”) deve ser usada para entender melhor os ensinamentos que estão sendo passados e aplicá-los na vida prática.

O objetivo é a busca pela clareza mental e a reforma moral.

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Diferenças chave: música vs. palavra

Embora ambas sejam cristãs, reencarnacionistas e usem o mesmo sacramento, o Santo Daime e a UDV são experiências ritualísticas muito diferentes. O Daime é uma doutrina que se expressa pela música e pelo sentimento.

O hinário é o guia, e a “miração” (visão) é altamente valorizada como um canal direto de comunicação com o divino. A experiência é mais extrovertida, com dança (nos bailados) e um louvor cantado em conjunto.

A UDV, por outro lado, é uma doutrina que se expressa pela palavra e pela razão. O foco é o estudo dos ensinamentos de Mestre Gabriel, transmitidos oralmente pelo Mestre da sessão.

A “borracheira” (a miração) é vista como um estado mental que permite entender melhor a doutrina, e não como um fim em si. A experiência é mais introspectiva, focada no silêncio, na escuta e na concentração.

A luta pela legalidade: como o chá se tornou lei

Foi em grande parte por causa do Santo Daime e da União do Vegetal que o uso da Ayahuasca é permitido no Brasil hoje.

Essas religiões não ficaram escondidas na floresta; elas cresceram, se organizaram e se espalharam pelas capitais do Brasil e, depois, pelo mundo. Esse crescimento, claro, atraiu a atenção das autoridades.

Durante as décadas de 80 e 90, o chá (que contém DMT, uma substância controlada) viveu um período de incerteza legal. Foram as lideranças da UDV e do Santo Daime que se apresentaram ao governo, abriram suas portas para estudos científicos e defenderam, com base na Constituição, seu direito à liberdade religiosa.

Após anos de estudos (que comprovaram que o uso ritual não trazia prejuízos sociais e não era “drogadição”), o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD) finalmente regulamentou, em 2010, o uso da Ayahuasca exclusivamente para fins ritualístico-religiosos.

Sincretismo: a mistura que deu certo

O que torna essas religiões tão únicas e tão brasileiras é o sincretismo. Mestre Irineu e Mestre Gabriel não tentaram copiar o ritual indígena. Eles criaram algo novo, que falava a língua do povo que estava ali: o caboclo, o seringueiro, o migrante.

Eles uniram a Ayahuasca (o saber indígena) com a reza do catolicismo popular (a fé em Maria, nos santos, em Jesus Cristo), com a lógica da reencarnação (do espiritismo kardecista) e com elementos da cultura popular e africana.

Eles criaram uma “ponte” espiritual. Para quem busca a Ayahuasca, mas se sente mais confortável em um ambiente que lembra a fé cristã — com ordem, hinos, preces e uma figura clara de Deus —, o Daime e a UDV se tornaram o caminho mais seguro e estruturado para essa jornada.

Conclusão

O Santo Daime e a União do Vegetal são as provas de que a Ayahuasca não é uma “coisa de índio” ou uma “droga de doido”.

São religiões sérias, complexas e profundamente estruturadas, que ressignificaram um chá amazônico como um sacramento cristão. Elas oferecem um caminho de disciplina, fé e comunidade para quem busca o autoconhecimento e a cura através da “Liana da Alma”.

Nascidas da visão de dois mestres seringueiros, Mestre Irineu (com sua doutrina de música e louvor) e Mestre Gabriel (com sua doutrina da palavra e da ordem), essas religiões foram as grandes responsáveis por abrir as portas legais e culturais para a Ayahuasca no Brasil.

Elas mostram que, seja cantando e bailando (no Daime) ou ouvindo e se concentrando (na UDV), o objetivo final é o mesmo que Mestre Irineu recebeu em sua visão: usar o poder da floresta como um caminho para o equilíbrio e para a conexão com o Divino.

Referências

  • NEVES, André Coitinho das. O processo de patrimonialização da ayahuasca no Brasil: conquistas, disputas & tensões. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017.

  • OLIVEIRA, Rita Barreto de Sales; AMARAL, Renilda Gonçalves do. Ayahuasca: Um Caminho para o Equilíbrio. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 01, Vol. 09, pp 724-738, Outubro / Novembro de 2016.

  • PACHECO, Carlos Eduardo Neppel. Um psicoativo em trânsito: o caso histórico da Ayahuasca. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2014.

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