Introdução
Ao explorarmos a Ayahuasca, seu uso terapêutico e sua adaptação ao contexto urbano, falamos muito sobre como nós, os não-indígenas (chamados por eles de nawá), usamos a medicina.
Mas, e os seus guardiões originais? O que a Ayahuasca — ou melhor, o Nixi Pae — significa para o povo que a detém há milênios, como os Huni Kuin?
Se sua busca por autoconhecimento o levou até as medicinas da floresta, é fundamental, por uma questão de respeito e profundidade, dar um passo atrás e ouvir a voz da origem.
Para o povo Huni Kuin (também conhecido como Kaxinawá), o Nixi Pae não é uma “ferramenta terapêutica” ou um sacramento religioso como o entendemos. É o pilar de sua identidade, uma tecnologia de conectividade com o cosmos e um instrumento de sua luta política.
Neste artigo, vamos tentar “abrir a visão” para entender o que é o Nixi Pae na perspectiva de quem o conhece de verdade.
Quem é o povo Huni Kuin?

Os "verdadeiros humanos"
Huni Kuin significa “Gente Verdadeira” ou “Povo Verdadeiro” na sua própria língua, do tronco Pano.
O nome “Kaxinawá”, que foi muito usado, é na verdade um apelido dado por outros povos, que pode ter um sentido pejorativo (como “povo morcego” ou “povo canibal”), por isso eles reivindicam o uso de seu nome real.
Os Huni Kuin são um dos povos indígenas mais numerosos do estado do Acre, vivendo às margens de rios como o Purus e o Juruá.
Sua história é marcada por uma imensa resistência: eles sobreviveram ao massacre do ciclo da borracha (quando foram escravizados nos seringais), à catequese forçada e às tentativas de apagamento de sua cultura.
A sua força e a sua identidade estão intrinsecamente ligadas ao Nixi Pae.
O mito de origem: o presente da jiboia
Para os Huni Kuin, o Nixi Pae não foi “inventado” ou “descoberto”; ele foi um presente, um ensinamento. O mito conta que a Jiboia (Yube) é a grande “dona” do Nixi Pae.
Em algumas versões, ela ensinou o primeiro pajé a preparar a bebida, passando a ele seus cantos (huni meka), seus desenhos (kene) e o conhecimento sobre a cura.
Por isso, a Jiboia e a Ayahuasca são inseparáveis. As visões (mirações) são chamadas de Yube Nawa, o “povo da Jiboia”.
O kene, aqueles desenhos geométricos que vemos nas pinturas corporais e nos tecidos Huni Kuin, não são decorativos: são a materialização da força da Jiboia, vistos nas visões do Nixi Pae.
Nixi Pae: muito mais que um "chá"

Uma tecnologia de conectividade
Para nós, nawá, a Ayahuasca é uma bebida. Para os Huni Kuin, o Nixi Pae é uma “tecnologia de conectividade”.
Beber Nixi Pae é “abrir a miração” para acessar outros planos da existência, para se comunicar com o mundo dos espíritos (yuxin), com os donos das plantas e dos animais, e com os seus ancestrais.
O Nixi Pae é o que permite ao pajé “ver” a causa espiritual de uma doença. A doença, para eles, muitas vezes não é um problema biológico, mas um desequilíbrio: a alma de uma pessoa foi “roubada” por um espírito, ou a pessoa quebrou um tabu (como comer uma caça proibida).
O pajé bebe o Nixi Pae para viajar até esses mundos, negociar com os espíritos e “resgatar” a alma do doente.
Os cantos (Huni Meka) e os Dau
A experiência do Nixi Pae não acontece em silêncio. Ela é guiada pelos huni meka, os cantos ancestrais. Esses cantos não são apenas “músicas”; eles são a própria medicina, o veículo que “chama” a força, que guia a miração e que realiza a cura.
Cada canto tem um propósito: há cantos para chamar a Jiboia, para dar força, para limpar, para curar doenças específicas. O pajé (pajé ou mukaya) é aquele que “sabe” os cantos.
O Nixi Pae também é a fonte de todo o conhecimento sobre as plantas. Os Huni Kuin dizem que, na miração, os espíritos das plantas se apresentam e ensinam para que servem.
É assim que eles aprenderam a usar os dau (remédios da mata, que também pode significar “veneno”, indicando a importância do conhecimento).
Um pilar político e cultural
Após décadas de repressão, onde foram proibidos de falar sua língua e praticar seus rituais, os Huni Kuin viveram um poderoso movimento de “renascimento” cultural.
E o Nixi Pae foi o motor dessa retomada. Foi bebendo o Nixi Pae que os mais jovens voltaram a “ouvir” os cantos antigos, a “ver” os kene e a se reconectar com a força de sua identidade.
Hoje, o Nixi Pae é também uma ferramenta política. A realização de grandes “festivais” nas aldeias, que atraem nawá (não-indígenas) do mundo todo, e as viagens dos pajés para as cidades, são formas de usar sua medicina para fortalecer sua cultura, gerar renda e lutar pela demarcação de suas terras.
O trânsito e os conflitos: o nawá e o yuxin
O conflito de mundos: "cura" vs. "conexão"
Aqui nasce um “conflito cosmo-ontológico”. Quando o nawá (nós, os não-indígenas) busca o Nixi Pae, ele geralmente busca uma “cura” para seus problemas individuais: depressão, ansiedade, trauma. Nossa visão é terapêutica e antropocêntrica (focada no ser humano).
Para o Huni Kuin, essa lógica é estranha. O Nixi Pae é sobre conectividade com o cosmos, sobre negociar com os espíritos (yuxin). A “cura” para eles é uma consequência de restaurar o equilíbrio com esses seres.
O nawá, ao beber o Nixi Pae na cidade, muitas vezes não tem a menor ideia de que está entrando em um mundo “povoado por espíritos”.
Ele quer os “efeitos” da Ayahuasca, mas não entende (ou não quer) o mundo dos yuxin que vem junto. Esse é o maior ponto de tensão e mal-entendido.
A "aliança" e o "negócio"
Quando o pajé Huni Kuin viaja para São Paulo ou para a Europa, ele traz sua medicina para o “circuito de consumo ritual”. O Nixi Pae se torna, de certa forma, uma mercadoria espiritual. Isso gera um dilema imenso para o próprio povo.
Por um lado, é uma forma de “aliança” política e de sobrevivência. O dinheiro paga pela demarcação de terras, e a aliança com os nawá “brancos” dá visibilidade e proteção política à causa indígena.
Por outro lado, há o risco de banalizar o sagrado, de transformar o Nixi Pae em apenas um “negócio”. Os próprios Huni Kuin debatem isso, com diferentes visões sobre como e para quem a medicina deve ser “aberta”.
O risco da imagem: fotografia como "roubo"
Um exemplo claro desse conflito de mundos é a fotografia. O nawá que vai ao festival na aldeia quer tirar fotos do ritual, registrar aquela experiência “exótica”. Para o Huni Kuin, porém, o ritual de Nixi Pae é um momento de vulnerabilidade, onde o corpo e o espírito estão “abertos” para os yuxin.
A câmera, nesse contexto, pode ser vista como algo agressivo, um “roubo de alma” ou uma “captura” da imagem-espírito da pessoa. A fotografia no ritual não é um registro neutro; é um ato que interfere na cosmologia e na espiritualidade do momento, mostrando como nossas ações, mesmo bem-intencionadas, podem ser uma violência contra a visão de mundo do outro.
Conclusão
O Nixi Pae não é a Ayahuasca. Ou melhor: a Ayahuasca que bebemos na cidade é, muitas vezes, uma versão simplificada, “terapeutizada”, de algo muito mais profundo e complexo.
Para o povo Huni Kuin, o Nixi Pae é a memória viva de seu povo, um presente da Jiboia que lhes dá os cantos, os desenhos e o conhecimento para curar.
É uma tecnologia de conexão com um cosmos povoado por espíritos (yuxin), e a “cura” é o reequilíbrio dessa relação. Ao “abrir” sua medicina para nós, os nawá, os Huni Kuin fazem um movimento de imensa generosidade, mas também um movimento político de aliança e sobrevivência.
Para quem busca essa medicina, a lição que fica é a da humildade. É entender que estamos entrando em um saber que não é nosso, que tem seus próprios donos e suas próprias regras (ontológicas).
O mínimo que podemos fazer é ouvir sua voz e entender que, para eles, o Nixi Pae não é um remédio para a ansiedade; é o coração pulsante da “Gente Verdadeira”.
Referências
FERNANDES, Saulo Conde. Xamanismo e neoxamanismo no circuito do consumo ritual das medicinas da floresta. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 289-314, maio/ago. 2018.
MENESES, Guilherme Pinho. Medicinas da floresta: conexões e conflitos cosmo-ontológicos. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 229-258, maio/ago. 2018.
MENESES, Guilherme Pinho. Nos caminhos do Nixi Pae: movimentos, transformações e cosmopolíticas. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
MILANO, Bárbara. Fotografia Ritual: uma experiência com o povo Huni Kuin. GIS – Gesto, Imagem e Som – Revista de Antropologia, v. 7, n. 1, 2022.
Disponível em frascos de 10 e 25g. Produzidos de acordo com os ritos tradicionais indígenas .









Respostas de 9
Sulit77’s legit! They got some decent promos and the site is easy to navigate. Just be smart about your bets, ya know? Try Sulit77 now: sulit77
The me88app is awesome, have had it downloaded for a bit now! Super convenient for gaming on the go. Everything you need, right in your pocket man. me88app
Just stumbled upon zoiwn. Website is a bit barebones, but looks promising. If you’re looking for something new and maybe a little risky, give it a shot. Who knows what you’ll find? Check it out! zoiwn
Heard some buzz about win777casino, so I had to check it out. Massive selection of games! Could get lost in there for hours. See if you like it win777casino
If you’re looking to make some extra cash, the win777affiliate program might be worth a peek. Seems pretty straightforward and the potential earnings look good. I would check it out win777affiliate
Just signed up for 123betno1, and the sign-up bonus is pretty sweet! They seem to have a nice mix of games and sports bets. What are you waiting for? More information available here 123betno1
Gave vin5599k a spin. The site looks alright and the games seem fair enough. I didn’t win big but I had a bit of fun!. Check it out here: vin5599k
Just browsing around on okebet4. The interface is pretty user-friendly. Lots of different betting events to choose from. Worth a shot if you’re hunting for new options! Check it out here: okebet4
Alright gamers, DK11gameapk is where it’s at if you’re looking to amp up your mobile gaming. Installation was a piece of cake, and the action is top-notch. Get in the game: dk11gameapk