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Medicina Tradicional vs. Ocidental: O Diálogo na Amazônia

A Medicina Ocidental vê a doença como biológica ou química. A Medicina Tradicional a vê como desequilíbrio espiritual ou social.
O conflito e a integração entre os saberes ancestrais e a ciência moderna.

Introdução

Na sua jornada por cura, seja para a ansiedade, para a depressão ou para um trauma, é muito provável que você já tenha se deparado com uma bifurcação.

De um lado, o caminho da medicina ocidental: o consultório do psiquiatra, os exames, os antidepressivos, a terapia com psicólogo. Do outro, um caminho mais antigo: o do pajé, das plantas de poder, dos rituais, da cura espiritual.

Por muito tempo, fomos ensinados que esses dois caminhos não se misturam. Que um é “ciência” e o outro é “crença”. Que um é “remédio” e o outro é “chá”.

Mas o que acontece quando a ciência começa a “descobrir” o que os pajés já sabiam há milênios? E o que acontece quando esses dois mundos tão diferentes são forçados a se encontrar, ali mesmo, na Amazônia?

Este artigo é sobre esse diálogo fascinante e conflituoso. É sobre a busca por um futuro onde a cura não precise escolher um lado, mas possa ser uma ponte entre eles.

Dois mundos, duas visões de "curar"

A medicina ocidental tratar o corpo e o sintoma. A medicina tradicional a relação entre o ser humano, a comunidade e o cosmos.

O que é a Medicina Ocidental? A doença no corpo

Para a nossa medicina moderna, ocidental e científica, a doença é, quase sempre, um problema biológico ou químico. Se você está com depressão, um exame pode mostrar um desequilíbrio de neurotransmissores (como a serotonina) no seu cérebro.

O tratamento, portanto, busca corrigir esse desequilíbrio físico: um antidepressivo (ISRS) que atua quimicamente.

A medicina ocidental é brilhante em tratar o corpo e o sintoma. Ela é baseada em evidências, em testes duplo-cegos, em farmacologia. Seus agentes de saúde são os médicos, enfermeiros e farmacêuticos. Seu foco é a doença como uma disfunção a ser eliminada.

O que é a Medicina Tradicional? A doença na alma

Para os povos indígenas, a medicina tradicional (ou xamanismo, pajelança) parte de um lugar completamente diferente.

A doença raramente é apenas um problema do corpo. Ela é, quase sempre, a consequência de um desequilíbrio espiritual ou social.

Como vimos no artigo sobre os Huni Kuin, para eles, a depressão ou a “panema” (desânimo) podem ser causadas por um “roubo de alma”. A alma da pessoa foi capturada por um espírito (yuxin) porque ela quebrou um tabu ou foi alvo de feitiçaria.

O agente de saúde, o pajé, não vai tratar o sintoma (a tristeza). Ele vai beber Nixi Pae (Ayahuasca), viajar ao mundo espiritual, encontrar a causa, negociar com os espíritos e “resgatar” a alma do doente.

A medicina tradicional trata a relação entre o ser humano, a comunidade e o cosmos.

Sistemas médicos, não apenas "plantas"

É aqui que cometemos o primeiro erro de julgamento. Muitas vezes, pensamos na medicina tradicional como “um monte de chá de planta” que “funcionava por acaso”. Isso é um profundo equívoco.

Os sistemas médicos indígenas são tão complexos, lógicos e eficazes quanto o nosso.

Eles possuem seus próprios métodos de diagnóstico (a miração do pajé), seus especialistas (pajés, parteiras, raizeiros), suas farmacopeias (os dau Huni Kuin, por exemplo) e suas teorias sobre a origem das doenças (a cosmologia).

A Ayahuasca não é só um “chá com DMT”; é uma ferramenta de diagnóstico de um sistema médico completo. Reduzir esse saber milenar a “crendice” é, no mínimo, arrogante.

O encontro e o conflito

Inauguração de UBSI na comunidade Mbya Guarani, em São Miguel, município de Biguaçu, na Grande Florianópolis.

A invasão branca: o posto de saúde na aldeia

O primeiro grande “diálogo” entre esses dois mundos foi, na verdade, um monólogo violento. Com a expansão do Estado na Amazônia, vieram os postos de saúde, os médicos e os agentes sanitários.

A medicina ocidental chegou nas aldeias não como uma alternativa, mas como uma imposição, tratando os saberes dos pajés como “superstição” e “atraso”.

Essa imposição gerou (e gera) um conflito profundo. O médico no posto de saúde quer vacinar a criança, mas não entende que, na cosmologia local, a agulha pode ser vista como uma violação que “abre o corpo” para maus espíritos.

O pajé, por sua vez, é desacreditado, perdendo seu papel social de curador e vendo seu povo adoecer de “doenças de branco” que suas plantas não curam (como a gripe ou o sarampo).

A ciência "descobre" a ayahuasca

O segundo movimento desse encontro é mais recente e vem na direção oposta: a ciência ocidental “descobrindo” as medicinas da floresta.

É o que estamos vendo agora: neurocientistas colocando pessoas em máquinas de ressonância magnética para “provar” que a Ayahuasca desliga a “Rede de Modo Padrão”. Psicólogos realizando estudos para “comprovar” que o chá tem efeito antidepressivo e ansiolítico.

Isso é bom, pois traz legitimidade e quebra o preconceito. Mas também é um risco. A ciência, ao tentar “validar” a Ayahuasca, muitas vezes a “desmonta”: ela isola o DMT, o IMAO, estuda a molécula, e se esquece do principal: o contexto.

Para o pajé, a cura não vem da molécula, vem do espírito da planta, do canto, do ritual.

O risco de "validar": quem precisa de quem?

Esse movimento cria uma armadilha sutil. Parece que a Ayahuasca só pode ser “real” depois que um cientista de jaleco branco publica um artigo sobre ela em uma revista internacional.

Mas… quem precisa dessa validação? O saber do pajé, que cura seu povo há milênios, precisa da “bênção” da ciência ocidental para ser considerado eficaz?

Esse é o “conflito ontológico”. A ciência tenta “explicar” a Ayahuasca dentro do seu mundo (moléculas, cérebro).

O pajé vive em um mundo onde a Ayahuasca é a prova de que o mundo dele (com espíritos, yuxin, Jiboia) é que é o real. São duas visões de mundo que, ao se encontrarem, disputam o que é, afinal, a “realidade”.

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Em busca de uma ponte: a saúde intercultural

O potencial da ayahuasca como "remédio"

Apesar do risco de “reduzir” a medicina, os estudos científicos ocidentais sobre a Ayahuasca estão abrindo portas incríveis.

Pesquisas de ponta têm mostrado que o chá, em contexto seguro, tem um potencial antidepressivo de ação rápida, ansiolítico e é uma ferramenta poderosa no tratamento da dependência química.

A ciência, com suas ferramentas (neuroimagem, psicometria), está comprovando em sua própria linguagem o que os pajés já sabiam: esta medicina cura feridas profundas da alma.

O que para o pajé é “resgatar a alma”, para o cientista é “diminuir a atividade da Rede de Modo Padrão”. São apenas duas linguagens diferentes para descrever o mesmo fenômeno de cura e reorganização interna.

O desafio da "tradução": a luta do pajé

O problema é que, no dia a dia, a medicina ocidental ainda detém o poder. O saber do pajé é visto como “alternativo”, e não como um sistema médico legítimo. O pajé Guarani Geraldo Karaí Okenda fala sobre o desafio de “tradução”.

Quando ele é convidado para uma universidade ou fala com um médico, ele precisa tentar “traduzir” sua cosmologia (onde a cura vem dos espíritos) para uma linguagem que o nawá (não-indígena) entenda.

Nessa tradução, muito se perde. É quase impossível explicar para um médico, que foi treinado a olhar para moléculas, que a cura de uma pessoa depende de um canto (meka) que ele recebeu da Jiboia (Yube) em uma visão de Nixi Pae.

A medicina ocidental não tem espaço em seu sistema para o “espírito” (yuxin).

A "saúde intercultural": é possível?

O futuro ideal, que já começa a ser sonhado e, em alguns lugares, praticado, é o da “saúde intercultural”. Não se trata de a medicina ocidental “engolir” a tradicional, nem o contrário.

Trata-se de criar um diálogo de respeito, onde os dois sistemas possam coexistir e colaborar, reconhecendo os limites um do outro.

Isso significaria um médico de posto de saúde que, antes de diagnosticar uma criança indígena com “transtorno de ansiedade”, perguntasse ao pajé da aldeia se o problema não é espiritual.

E, ao mesmo tempo, um pajé que reconhece que uma malária ou uma apendicite precisam da intervenção rápida da medicina ocidental.

É reconhecer que o ser humano é, ao mesmo tempo, um corpo biológico (que o médico trata) e um ser espiritual (que o pajé trata).

Conclusão

Estamos no meio de uma revolução silenciosa. A “floresta de cristal” dos pajés e o mundo de aço e vidro dos nossos laboratórios estão se encontrando, e o epicentro desse encontro são as Medicinas da Floresta. A Ayahuasca, em especial, forçou esse diálogo.

Vimos que não se trata de “ciência” contra “crença”. Trata-se de dois sistemas médicos completos, com lógicas diferentes, mas que buscam o mesmo fim: a cura do sofrimento humano.

A medicina ocidental foca no corpo e na química. A medicina tradicional foca na alma e na relação com o cosmos.

O maior desafio para nós, que estamos no meio dessa ponte, é a humildade.

É a capacidade de a ciência ocidental admitir que não sabe tudo, e que o pajé, com seus cantos e chás, detém um conhecimento profundo sobre a mente humana que nossos microscópios ainda estão engatinhando para entender.

E, para nós, que buscamos a cura, a lição é que talvez a solução não esteja em escolher um lado, mas em aprender a caminhar com os dois.

Referências

  • FERNANDES, Saulo Conde. Xamanismo e neoxamanismo no circuito do consumo ritual das medicinas da floresta. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 289-314, maio/ago. 2018.

  • HAMILL, Jonathan et al. Ayahuasca: Psychological and Physiologic Effects, Pharmacology and Potential Uses in Addiction and Mental Illness. Current Neuropharmacology, v. 17, p. 108-128, 2019.

  • JATOBÁ, Joice Cruz. Efeitos da Ayahuasca sobre a cognição: uma revisão sistemática de estudos em humanos. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Biomedicina) – Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2022.

  • MENESES, Guilherme Pinho. Medicinas da floresta: conexões e conflitos cosmo-ontológicos. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 229-258, maio/ago. 2018.

  • MENESES, Guilherme Pinho. Nos caminhos do Nixi Pae: movimentos, transformações e cosmopolíticas. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.

  • ROSE, Isabel Santana de; OKENDA, Geraldo Karaí. Xamanismos Guarani e Tradução no Encontro de Saberes. Revista Ilha, v. 23, n. 3, p. 21-40, 2021.

  • SARRIS, Jerome et al. Ayahuasca use and reported effects on depression and anxiety symptoms: An international cross-sectional study of 11,912 consumers. Journal of Affective Disorders Reports, v. 4, 100098, 2021.

  • SILVA, Clécio Danilo Dias da; MOTA, Danyelle Andrade (Orgs.). Ciência da Vida: Estudo das plantas, animais e seres humanos. Atena Editora, 2022.

  • SOUZA, Leonardo Ferreira de; MARTINS, Alberto Mesaque. O uso da ayahuasca no tratamento da dependência química: uma revisão integrativa brasileira. V. 20, n. 2, 2020.

  • (Org.). Medicinas Tradicionais e Medicina Ocidental na Amazônia. Belém: Edições CEJUP, 1991.

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Disponível em frascos de 10 e 25g. Produzidos de acordo com os ritos tradicionais indígenas .

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