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Sananga e Rapé: as outras medicinas da floresta

Foto Tabernaemontana sananho. A Sananga e o Rapé compõem a diversidade de medicinas da floresta.
Conheça a sananga, o poder do colírio indígena e a força do tabaco em pó, o rapé.

Introdução

Na sua jornada por equilíbrio e autoconhecimento, talvez você sinta que, além das grandes jornadas de introspecção como a Ayahuasca, faltam ferramentas para o “aqui e agora”.

Ferramentas para aguçar sua visão, para limpar a mente da ansiedade do dia a dia ou para firmar seu propósito com mais foco.

O universo das Medicinas da Floresta é sábio e completo, e oferece exatamente isso. Existem medicinas que não são sobre “mirações”, mas sobre presença.

Duas delas se destacam pela sua força e popularidade nos rituais urbanos: a Sananga, um colírio indígena que arde para “abrir a visão”, e o Rapé, um pó de tabaco e cinzas que limpa a mente e aterra o espírito.

Elas são, muitas vezes, as “portas de entrada” ou as “companheiras de jornada” de outras medicinas.

Neste artigo, vamos conhecer de perto essas duas forças sutis e potentes da floresta.

A força do sopro: o rapé

Foto Aplicação Rapé Indígena com Tepi. O Rapé indígena é administrado através de um sopro. Na foto, a aplicação é feita com o tepi.

O que é exatamente o rapé?

O Rapé (pronunciado ha-peh) é um pó fino e aromático, de cor acinzentada ou marrom. Ele é uma mistura complexa, e sua receita é um saber ancestral.

A base da maioria dos rapés é o tabaco (Nicotiana rustica), uma planta considerada sagrada por muitos povos indígenas, muito diferente do tabaco comercial.

Esse tabaco é moído e misturado com as cinzas de árvores específicas, que também têm propriedades medicinais, como o cumaru, o murici ou o pau-pereira.

Cada povo, e até mesmo cada família, pode ter sua receita, adicionando outras ervas e sementes para fins específicos.

Portanto, não existe “um” Rapé, mas sim um universo de rapés. Os Huni Kuin (Kaxinawá), por exemplo, o chamam de Dume Deshke.

A aplicação: o sopro que cura

Diferente do rapé de cheirar (inalar) europeu, o Rapé indígena é administrado através de um sopro.

Isso é feito com duas ferramentas: o Tepi (um aplicador longo, em forma de V, usado para soprar o pó nas narinas de outra pessoa) ou o Kuripe (um aplicador pessoal, menor e em forma de V, que conecta a boca às narinas para a autoaplicação).

O sopro, que deve ser dado nas duas narinas para equilibrar as energias, é um momento de intenção e cura.

A pessoa que sopra (o “passador”) transmite sua força e sua reza, e quem recebe, o faz em atitude de respeito e entrega. O sopro é forte e joga o pó diretamente para o fundo das cavidades nasais.

A experiência: limpeza, foco e conexão

O efeito do Rapé é imediato e muito físico. O primeiro impacto é uma ardência aguda, que “chama à terra”, trazendo a consciência instantaneamente para o corpo e para o presente. Os olhos lacrimejam, e é comum que se inicie um processo de limpeza, com o nariz escorrendo (expectoração).

Algumas pessoas podem sentir náusea, tontura ou necessidade de cuspir, o que é visto como parte da limpeza de energias estagnadas.

Passado esse primeiro impacto, que dura alguns minutos, a sensação é de uma clareza mental impressionante. É como se o “rádio” da mente, com suas preocupações e pensamentos ansiosos, fosse silenciado.

O Rapé é uma medicina de foco, de aterramento (energia “que sobe”) e de “limpar o espírito”. Ele é usado para abrir e fechar rituais, para dar força durante uma cerimônia de Ayahuasca, para aliviar dores de cabeça ou simplesmente para meditar com mais profundidade.

A visão clara: a sananga

Foto: aplicação do colírio indígena. A Sananga é uma medicina em forma de colírio, geralmente feita a partir do sumo da casca da raiz de um arbusto amazônico.

O que é a sananga?

A Sananga é uma medicina em forma de colírio, geralmente feita a partir do sumo da casca da raiz de um arbusto amazônico (da família Apocynaceae).

É um líquido que, guardado em sua forma pura, precisa ser conservado com cuidado, pois é uma medicina “viva”.

Assim como o Rapé, a Sananga não é psicoativa no sentido de causar visões. Sua força atua de outra maneira, especificamente no sentido da visão, que, para os povos indígenas, está diretamente ligada à percepção espiritual.

A aplicação: o ardor que abre

A aplicação é simples e direta: uma ou duas gotas do colírio são pingadas em cada olho, que deve estar fechado. A pessoa então abre os olhos e pisca, permitindo que a medicina entre. A reação é imediata e inevitável: um ardor muito, muito intenso.

A sensação é descrita como “ter pimenta nos olhos” e dura de dois a cinco minutos.

É um momento de desafio, que exige entrega e controle da respiração. O corpo reage com lágrimas, que são vistas como uma forma de limpeza física e emocional.

O aplicador geralmente assopra ou canta para ajudar a pessoa a atravessar o pico da ardência.

A experiência: vendo o mundo com novas cores

Por que alguém faria isso voluntariamente? Pelo que vem depois da ardência. Quando o fogo nos olhos se acalma, a sensação é de uma clareza visual e espiritual impressionante.

No nível físico, os olhos parecem mais “limpos”; cores ficam mais vivas, contornos mais nítidos, e a percepção do ambiente (especialmente na natureza) se aguça.

Mas o principal propósito é espiritual. A Sananga é usada para “abrir a visão”, para “limpar a névoa” mental e espiritual.

Ela ajuda a pessoa a ver com mais clareza as situações da vida, a dissolver padrões de pensamento negativos (“panema” mental) e a enxergar a verdade por trás das ilusões.

É uma medicina que ensina a encarar o desconforto de frente para poder enxergar com clareza cristalina.

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Aprofundando o debate: sabedoria e cuidado

O tabaco: o grande mal entendido

Para muitos, a palavra “tabaco” é sinônimo de vício, doença e algo a ser evitado. E quando falamos do cigarro industrial, essa visão está correta.

No entanto, no universo indígena, o tabaco (Nicotiana rustica, uma variedade mais forte) é uma das plantas mais sagradas e poderosas, talvez a principal “planta de poder” de muitas culturas.

Para os povos originários, o tabaco é um “mestre” que cura, limpa, protege e abre a comunicação com o mundo espiritual.

Ele é usado em rezas, defumações e, claro, no Rapé. O vício, para eles, não está na planta, mas na forma como a nossa sociedade de consumo a utiliza: de forma profana, compulsiva e misturada com centenas de produtos químicos.

O Rapé é um convite a resgatar a memória sagrada do tabaco, usando-o como um veículo para a cura e a oração, e não como uma fuga.

O risco da canalização no "mercado xamânico"

Justamente por serem de aplicação mais simples e não terem o mesmo impacto legal ou psicoativo da Ayahuasca, o Rapé e a Sananga se tornaram imensamente populares.

Eles são, hoje, itens comuns no “circuito do consumo ritual” urbano. E isso traz um risco enorme: a banalização.

Começa a surgir o “rapé de balada”, o uso da medicina de forma recreativa, como um simples “pó para dar um barato” ou para “limpar a ressaca”.

A Sananga, por sua vez, é vendida em frascos pela internet, muitas vezes sem procedência, sem a força da reza de quem a fez e sem o contexto ritual adequado.

Quando uma medicina sagrada se torna apenas mais um produto exótico no mercado espiritual, ela perde sua alma e seu poder de cura.

A importância da fonte e da intenção

Um Rapé não é apenas tabaco e cinza; ele é a “reza” de quem o fez. É a força do pajé, a sabedoria das plantas usadas na cinza, a intenção de cura que foi colocada ali.

Um Rapé “sem força”, feito de qualquer jeito por alguém na cidade apenas para vender, não é medicina, é só um pó. O mesmo vale para a Sananga.

Por isso, o respeito a essas medicinas começa na busca pela fonte. É importante procurar por rapés e sanangas que venham de fontes tradicionais, feitos por quem detém o saber (seja indígena ou um praticante sério que aprendeu com a tradição).

A sua intenção ao usar também é tudo. Você busca uma limpeza espiritual, um foco para sua meditação, ou apenas uma sensação física momentânea? A medicina responde à sua intenção.

Conclusão

O Rapé e a Sananga são provas vivas de que a sabedoria da floresta não se resume a grandes jornadas visionárias. Elas são as medicinas do “aqui e agora”, ferramentas poderosas para o nosso dia a dia.

Elas nos ensinam que a cura pode vir de formas diferentes: no sopro que silencia a mente e no colírio que arde para nos fazer enxergar.

O Rapé resgata o espírito sagrado do Tabaco, usando-o para limpar nossa ansiedade, aterrar nosso espírito e nos dar foco.

A Sananga nos desafia a encarar um desconforto intenso e momentâneo para, em troca, nos dar uma clareza de visão física e espiritual que muitas vezes nos falta.

Sua popularidade e fácil acesso nos centros urbanos são um presente da floresta, mas também um teste de responsabilidade.

Cabe a nós, buscadores do autoconhecimento, tratá-las não como produtos de consumo, mas como o que realmente são: medicinas sagradas, que exigem respeito, intenção e uma profunda gratidão pela tradição que as protegeu.

Referências

  • BORBA, Mauricius Pereira de. O Uso das Medicinas da Floresta: um relato de experiência vivida. Trabalho de Conclusão de Curso (Enfermagem) – Centro Universitário Ritter dos Reis, Porto Alegre, 2023.

  • FERNANDES, Saulo Conde. Xamanismo e neoxamanismo no circuito do consumo ritual das medicinas da floresta. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 289-314, maio/ago. 2018.

  • MENESES, Guilherme Pinho. Medicinas da floresta: conexões e conflitos cosmo-ontológicos. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 24, n. 51, p. 229-258, maio/ago. 2018.

  • MENESES, Guilherme Pinho. Nos caminhos do Nixi Pae: movimentos, transformações e cosmopolíticas. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.

Rapé Tradicional Indígena

Disponível em frascos de 10 e 25g. Produzidos de acordo com os ritos tradicionais indígenas .

Foto Rapé: medicina indígena tradicional - tubo 10g
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Microdose de Ayahuasca

As microdoses de ayahuasca são indicadas para acompanhamento após uso ritualístico no processo terapêutico.

Ayahuasca - microdoses de alta concentração. Medicina indígena 3 unidades

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